Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou recentemente que “não tem o que conversar” com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, muitos encararam como apenas mais uma frase dura típica do jogo político. Porém, para quem acompanha a fundo as relações internacionais e os fluxos econômicos globais, a declaração expõe muito mais que um desentendimento pessoal: revela um distanciamento diplomático que pode impactar diretamente o bolso do brasileiro — e por mais tempo do que se imagina.
Historicamente, os Estados Unidos não são apenas um parceiro comercial relevante para o Brasil; são um dos principais pilares da nossa balança comercial, fonte significativa de investimentos diretos e canal de acesso a tecnologias, financiamento e acordos estratégicos. Desde a redemocratização, governos brasileiros — de direita e de esquerda — buscaram, ainda que com divergências ideológicas, manter um canal de diálogo ativo com Washington. Não se tratava de afinidade política, mas de pragmatismo econômico.
O ponto é que, enquanto o Brasil fecha portas, países do próprio bloco dos BRICS — como Índia e África do Sul — estão, curiosamente, se aproximando dos EUA. Nova Délhi, por exemplo, acaba de fechar um acordo bilionário para fornecimento de tecnologia e cooperação militar. Pretória ampliou laços no setor de energias renováveis e infraestrutura. O que antes era visto como um bloco antagônico aos interesses norte-americanos agora se reconfigura de maneira mais flexível, aproveitando oportunidades. E o Brasil? Está ficando à margem desse movimento.
O Impacto Imediato (Curto Prazo)
No curto prazo, a ausência de diálogo pode se traduzir em barreiras comerciais e tarifas adicionais — como já começou a acontecer com a taxação imposta pelos EUA a produtos brasileiros. A indústria do aço, do alumínio e do agronegócio são as primeiras a sentir o baque, mas o efeito cascata chega ao consumidor. Menos exportações significam menos entrada de dólares, o que pressiona o câmbio e encarece produtos importados, de eletrônicos a combustíveis.
Além disso, o Brasil perde prioridade em agendas estratégicas. Enquanto países que mantêm bom relacionamento conseguem flexibilizações tarifárias e prazos de adequação regulatória, empresas brasileiras enfrentam burocracia e custos adicionais para competir no mercado americano.
O Custo Estrutural (Médio Prazo)
Com o tempo, a falta de diálogo se torna mais que um problema comercial — vira um gargalo estrutural. Investidores internacionais, especialmente fundos norte-americanos, tendem a reduzir ou redirecionar aportes para países que oferecem não apenas estabilidade econômica, mas previsibilidade diplomática.
Um exemplo histórico vem dos anos 1980, quando divergências políticas entre o Brasil e os EUA levaram a um arrefecimento das negociações comerciais, impactando setores emergentes como tecnologia e telecomunicações. Décadas depois, sentimos a defasagem tecnológica resultante dessas decisões.
No médio prazo, a indústria nacional pode perder acesso a cadeias globais de valor, já que muitas dessas redes são lideradas ou financiadas por empresas norte-americanas. Isso significa menor competitividade para produtos brasileiros no mercado global e, consequentemente, estagnação ou retração de setores inteiros.
O Preço Geopolítico (Longo Prazo)
O isolamento diplomático não afeta apenas a economia — ele mexe no tabuleiro geopolítico. Países que se distanciam dos EUA tendem a depender mais de outros blocos, como China e Rússia, que possuem seus próprios interesses estratégicos. O risco é o Brasil se tornar excessivamente dependente de um único polo, perdendo margem de manobra nas negociações internacionais.
Basta olhar para casos como o da Venezuela, que ao romper completamente com os EUA, acabou ficando refém de poucos aliados, com severas restrições econômicas e comerciais. Não se trata de afirmar que o Brasil seguirá o mesmo caminho, mas ignorar as lições desses exemplos é negligenciar a própria segurança econômica nacional.
Oportunidades que Estamos Perdendo
A postura atual fecha portas para:
- Acordos bilaterais de redução tarifária em setores estratégicos como energia limpa, biotecnologia e defesa.
- Parcerias tecnológicas para modernização da infraestrutura nacional, especialmente em telecomunicações e energia renovável.
- Acesso facilitado a capital norte-americano, vital para startups, fintechs e projetos de inovação.
- Negociações multilaterais mais favoráveis, já que a ausência de diálogo bilateral enfraquece a posição do Brasil em fóruns como OMC e G20.
A diplomacia não é sobre afinidades pessoais; é sobre o interesse do país. Ao se recusar a dialogar com o principal parceiro econômico do Ocidente, o Brasil corre o risco de comprometer seu crescimento, aumentar sua vulnerabilidade econômica e restringir suas oportunidades no cenário global.
O momento exige pragmatismo, não ideologia. É hora de reabrir canais de comunicação com Washington, negociar com firmeza, mas sem fechar portas. O custo do silêncio é alto — e quem paga essa conta é o cidadão brasileiro, no preço do pão, no valor do combustível, na perda de empregos e na estagnação de oportunidades.
Se você entende a importância da política externa para o seu bolso, acompanhe de perto as decisões diplomáticas do Brasil. Pressione seus representantes para que coloquem o interesse nacional acima de disputas ideológicas.
Paulo Sá é empresário, apaixonado por política, história e comportamento humano, e acredita que a educação é a verdadeira força capaz de transformar sociedades.
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